Sobreviventes - Pasquim

O Fim do Mundo (1)

A teoria do fim do mundo em 2012, como previram os Maias, serve de inspiração para esta nova série em que fatos do cotidiano que podem ser traduzidos como sinais dos efeitos do fim do mundo.

Ópera-Bufa

Como existe a dúvida se a vida imita a arte ou vice-versa, uma analogia com o caso que inaugura esta série, poderia ser visto como uma ópera-bufa do terceiro milênio, sem ser ligeira, espirituosa ou satírica. É a vida real numa tragédia, vista por alguns como comédia.

Primeiro ato

Uma médica pediatra, dando sequência aos atendimentos a um paciente (com idade pouco superior a um ano de vida), interrompe a série de consultas argumentando que tinha o direito de não atender mais a criança porque a mãe tinha convicções políticas diferentes das suas. A mãe, e não a criança, foi acusada e injuriada e o filho pagou pelo cancelamento do acompanhamento. A justificativa da médica foram acontecimentos políticos nacionais que colocaram em lados opostos médica e mão do paciente. O caso repercute.

Segundo ato

Após ampliação e repercussão nacional, o caso ganha contornos de revanchismo. O presidente o sindicato dos médicos do estado em que a ópera ocorre, resolve sair em defesa de sua associada. Ele declara: “É absolutamente ética. O código de ética médico tem um artigo que estabelece como deve se dar a relação entre médico e paciente.”, e prossegue dizendo que “Ela tem a nossa admiração e não tem porque se arrepender. Ela tem que se orgulhar disso. Tem que se orgulhar de ter cumprido o código de ética, ter sido clara, honesta..”. O declaração repercute.

Terceiro ato

O Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Sul ratifica a declaração do seu presidente e defende seu código de ética, a despeito do juramento profissional e garante que “o médico exercerá sua profissão com autonomia, não sendo obrigado a prestar serviços que contrariem os ditames de sua consciência ou a quem não deseje, excetuadas as situações de ausência de outro médico, em caso de urgência ou emergência, ou quando sua recusa possa trazer danos à saúde do paciente”, complementando, laconicamente que: “O SIMERS reforça sua posição apartidária e de respeito a todos os cidadãos”. O apoio repercute.

Quarto ato

Aí começam gente de todas as cores partidárias, torcedores do Fla-Flu que se tornou a disputa política no Brasil e que, REPITO, não vai terminar como nenhum dos dois lados esperam a mostrar suas garras. Virou briga ideológica partidarizada. Cadeirada pra tudo quanto é lado. Ameaças, agressões verbais, acusações, desrespeito a uma criança de 1 ano que precisava somente de um atendimento, e que uma médica e sindicato julgam ser impróprio, porque a médica tem orientação política diferente da mãe da criança. Será que alguma instância não corporativa e não ideologizada vai repercutir?

Fecha o pano!

O Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) estabeleceu nesta quarta-feira (30) um prazo de 15 dias para que a médica pediatra Maria Dolores Bressan se defenda das acusações de que recusou atender um paciente devido à filiação política da mãe da criança.

O Mundo acabou

Digo que o mundo acabou, conforme o calendário Maia previra, em dezembro de 2012. Muitas charges foram feitas sobre o assunto, a mais interessante dizia que o mundo não acabou num átimo de segundo. Os homens vão cuidar do “the end”, e assim está acontecendo.

Me surpreendo ao discutir com um pirralho, que entrou na briga em favor do “direito de escolher pacientes”, num país que nem motorista de táxi tem direito de escolher corrida, e pode sofre punições por isso, um médico pode escolher pacientes pela opção sexual, pela ascendência, pela ideologia dos pais, dos avós e mais uma infinidade de desculpas.

Não ignoro que no ato médico, a dimensão técnica e a dimensão ética devem permear a reação médico-paciente. Esta relação não tem a ver com mãe do paciente. Uma pediatra não deveria sequer cogitar isto. É despreparada. Foi adestrada para um mundo de egoísmo. Teve dinheiro para pagar escola mas não conseguiu educação.

Vai aparecer gente para defender estas escolhas, mesmo que sejam de médicos que julgam urgência e emergência pelo plano de saúde ou que prescrevem curativos para pacientes particulares e deixam pacientes de planos sem o tratamento devido. Chamam isto de ética.

Os Conselhos Regionais e o Conselho Federal devem estar pensando nas absolvições e processos secretos que enfrentam. Não sei porque, lembrei-me do caso da OAB que faz vistas grossas para seus associados sendo escutados pela Justiça nas consultas com seus clientes e se imiscuindo em pedido de impeachment. Daqui a pouco médicos pedirão impeachment. OPA! Já pediram, desrespeitam até outros profissionais que são honestos ao atender programas sociais e comunidades carentes. Mas continuam usando digitais de silicone para cobrir plantões de seus éticos colegas de profissão.

A cada dia que nos aproximamos do fim do mundo real, defendo mais e mais o SUS e seus ciosos profissionais de medicina, desde a auxiliar ou técnica de enfermagem que faz as triagens de verdade, até os médicos de outros países que atuam em comunidades carentes e vem recebendo avaliações muito positivas.

Em tempos de redes sociais e séries de TV, parece que esta ópera-bufa não tem ato final. Virou série.

Imagem: Reprodução “O Pasquim”

2 comments for “O Fim do Mundo (1)

  1. Maria Celeste Gonçalves Campos
    03/04/2016 at 12:39

    Caro Evandro, a discussão é complexa e talvez esse espaço não seja suficiente. Sobre a figura, o sujeito que se omite diante de uma situação desta, não o faz por questão de ética médica e sim por falta de caráter. Eu creio que o CREMERS fará o que lhe cabe nessa história. Sou médica do SUS com muito orgulho. Estou do lado de qualquer médico que se disponha a ir para os rincões desse país, incluindo os que vieram de outros países. Só não entendo por que a prefeitura de Sorocaba, a 85 KM de SP, se inscreveu no programa e conseguiu 14 deles. Há muitos deles também no estado de SC. A ideia do governo quando criou o programa pode ter sido boa, mas execução do programa não…

    • 05/04/2016 at 13:45

      Dra. Celeste, neste caso o Sindicato e seu presidente foram claros. Particularmente, não confio em conselhos profissionais corporativistas.
      Me preocupa a questão da decisão e o que motivou a decisão. Arguir ética é complicado… advogados que o digam…
      Entretanto, ressalto que não é minha pretensão esgotar o assunto… só mostrar que, o mundo acabou… e que nestas pequenas coisas, vamos percebendo que tem muita coisa errada e que estamos varrendo para debaixo do tapete. Eu diria que o tapete não tem mais capacidade de acobertar corporativismos, éticas aéticas, impunidade e por aí vai… Tenho exemplo dignos de atendimento médico. Sou prova viva da qualidade que alguns abnegados colocam a serviço do SUS (desde atendentes até médicos especialistas)… e um dos médicos que me atendeu sabe das minhas preferências partidárias e futebolísticas, TODA consulta é um debate só acerca de política e futebol e ele nunca me negou ou negligenciou tratamento algum, pelo contrário.

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