Problemas Organizacionais

A difícil arte de ser levado a sério

Tenho mais de 40 anos de vida profissional. Comecei a trabalhar muito cedo, por estas contingências da vida. Não tive aquela chance de ficar estudando o que eu queria por intermináveis anos. Estudei, desde o ensino técnico, aquilo que eu quis. Neste tempo de atividades profissionais foi possível aprender muita coisa, conhecer muita gente, lidar com todos os tipos de adversidades e opositores, de ideias e pessoais. Ainda lido com isto. Alguns destes comportamentos a gente consegue avançar ou moldar-se aos ritos e preceitos que a sociedade nos impõe.

Um dos maiores problemas que, ainda hoje, enfrento é não ser levado a sério, profissionalmente, por questões puramente pessoais. Algumas (eu diria muitas) pessoas, nestes 40 anos, disseram claramente: “… você leva as coisas muito a sério …”. Nunca entendi esta colocação. Quer dizer que, profissionalmente, nos relacionamentos empresariais e afins não é para levar “muito a sério”???

Tenho a convicção de que as questões e relacionamentos pessoais não devem ser confundidas com as questões profissionais e empresariais. A princípio, não trabalho para uma empresa para servir-me disso para a vida pessoal, para encontros familiares. Não digo que isto não possa ser decorrência da relação profissional. Fiz muitos amigos a partir destas relações, mas a principalidade não deveria ser esta.

Assim, relaciono a seguir alguns sinais graves na relação profissional que, a maioria deles, associados a questões pessoais, provocam ruídos que trazem, certamente, mais prejuízo para as organizações do que para as pessoas. Sou do tipo que prefiro ser avaliado pelos resultados profissionais do que pelos sorrisos democráticos e hipócritas que vamos distribuindo ao longo dos trabalhos e empresas que participamos.

Discussão constante

Entendo que uma forma de respeitar a opinião e posição alheia é o debate. Se não concordo com um ponto de vista, o debate é a saída. Aí aparece a discussão. Sim, existe diferença, ao menos pra mim.  Particularmente, não concordo que todos que querem discutir estão se aproveitando de uma possível fraqueza minha de aceitar qualquer “pé de briga”. Aceito o início da discussão para ver qual o nível de debate proposto pelo interlocutor.

Quando alguém, para refutar alguma coisa que manifestei, não se dirige a mim e discute (na realidade, chora as mágoas) com outrem, e sempre que interlocutores preferem tratar tudo como discussão, entendo que meu ponto de vista não está sendo levado a sério.

Inteligência subestimada

A priori, avalio que todos tem capacidade cognitiva e inteligência equivalentes, profissionalmente falando isto é uma utopia, mas gosto deste tipo de utopia. Mas em tempos de comunicações midiáticas digitais e completa falta de segurança e cuidado com a informação que circula nos meios de comunicação digital, vemos que as pessoas se soltam como e onde não devem. Fica mais fácil falar pelas costas.

Conversas presenciais secas, debates monossilábicos, sarcasmo, paralogismos, analogias impróprias e falácias seja verbalmente, por emails e redes sociais são sinais claros que seus colegas de profissão subestimam sua inteligência. Aqui adoto o provérbio. Melhor ficar calado e não se manifestar. As pessoas podem saber que você não é inteligente.

Ignorar e menosprezar

Alguns fatores que permeiam a arte de ser levado a sério são decorrências da mistura de conceito enquanto causa e efeito. Ao ignorarem a pessoa, ignoram o trabalho. Não ser consultado para projetos, soluções, problemas e desconsiderarem conselhos e orientações são evidências de que suas opiniões não são levadas a sério. Adicionalmente, o escárnio, piadinhas, pegadinhas, situações em que riem de você e não para você, é mais uma evidência de que seu conteúdo está sendo desprezado por fatores pessoais. E, é claro, que os interlocutores não possuem fundamentação nas contraposições e debate.

Ajudar e ser ajudado

O trabalho nas organizações é cooperativo. A analogia com times de futebol e equipes aplica-se, de forma genérica, a estes ambientes profissionais. O craque do time não joga sozinho. Se não forem os carregadores e afinadores de piano, nenhum pianista poderia mostrar sua qualidade.

Quando você oferece ajuda para a equipe, subordinados ou não, mesmo em situações que é necessário uma ajuda externa, e esta ajuda é recusada ou aparece o diversionismo, é porque algumas outras situações podem estar complicando a organização. Medo de perder a posição é uma destas situações. As pessoas são inseguras com quem apresenta conteúdo superior ao delas e tornam-se ameaças pela capacidade de crítica de quemtem mais conteúdo.

Por outro lado, quando precisamos ou solicitamos ajuda, e mesmo que estas pessoas tenham disponibilidade para ajudar em problemas, mesmo os pontuais e de fácil resolução pela capacidade e qualificação de quem você pede ajuda, e esta ajuda é recusada, a situação é grave. Desculpas como “aqui sempre foi assim”, “você não conhece como funciona aqui” e semelhantes, revelam que as pessoas não querem ajudar, mesmo que consigam. Mais do que você não ser respeitado, a organização está sendo lesada.

Levando à sério

Considerando estas condições, observa-se que o problema não é de conteúdo, é de relacionamento, é pessoal, o que torna-se grave numa organização. Objetivos e metas pessoais se sobrepondo ao necessário para qualquer projeto é receita de fracasso. Egos e disputa de poder não deveriam se sobrepor aos interesses da empresa.

Isto é levar “muito a sério” ?

Eu levo muito a sério. Mesmo sendo desrespeitado, prossigo acreditando que qualquer coisa nas empresas deva ser feito COM as pessoas e não APESAR das pessoas. Alguns chamam isto e “dar murro em ponta de faca”. Que seja ! Tive muitos sucessos e insucessos nestes últimos 40 anos. Nada tem sucesso garantido. As “pontas de faca” só aumentam. Uma pessoa que não leva as outras à sério, nunca será levada a sério. E seguimos calejados.

Charge: Rice

 

2 comments for “A difícil arte de ser levado a sério

  1. Maria Celeste Gonçalves Campos
    12/10/2016 at 14:19

    Evandro, essa é a realidade de grande parte das “equipes” de trabalho. Trabalhar sério é pedir para esmurrar facas. Eu encaro isso como um desafio.

    • 12/10/2016 at 21:26

      Dra. Celeste, concordo e pratico esta situação como desafios. Não era para se, né mesmo? Mas as decorrências destes comportamentos estão se tornando a principal causa de projetos mal feitos, de projetos e ações cheias de desperdício. A impunidade e conivência com a incompetência estão se alastrando em todas as organizações, públicas e privadas. Em tempos de crise como o que estamos vivenciando e que podem recrudescer, muita gente tá desempregada, se achando experts e injustiçados e nem desconfiam que não passam de incompetentes que foram defenestrados. E até mesmo quem não é levado à sério sofre as consequências.

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