Educação Familiar

Pais super-protetores

Meio que instintivamente, até pelas experiências que passei por ter perdido o pai muito cedo e por minha mãe ter que se afastar da criação dos filhos pequenos para trabalhar, criei meus filhos sem uma superproteção, de maneira um pouco diferente da que vi amigos e parentes criarem os seus. Quem não pode contar com auxílio profissional especializado em comportamento e relações familiares forja com a vida.

Minha experiência de quase dez anos em Brasília mostrou algumas diferenças comportamentais e culturais interessantes. Talvez por ser a capital federal e aglutinar pessoas do mundo inteiro, o caldo cultural é altamente diversificado e aliado ao fato de que a cidade é relativamente nova vemos que não existe uma cultura de sociedade naquele espaço geográfico. Esta condição provoca alguns comportamentos fora do padrão.

Superproteção

Este é um dos comportamentos que mais me assustou em Brasília. Logo quando cheguei, observei nos colegas de trabalhos, não importa se pais ou mães, uma atenção absurda para qualquer coisa que dissesse respeito aos filhos. Presenciei, logo no início, uma mãe interrompendo uma reunião de trabalho para discutir com um dos filhos, sobre uma briga trivial (IMO) com o irmão mais novo, porque a empregada ligou como se fosse uma emergência.

Comecei a depreender que a superproteção dos pais, no caso de Brasília, extremamente exagerada, tem origem no comportamento e percepção dos próprios pais. Como a maioria dos moradores de Brasília (especialmente os que atuam no Governo Federal),tem poucos ou nenhum parente em Brasília, o conceito de célula familiar se resume a poucas pessoas, e mesmo os familiares se distanciam de forma absurda, a distância da realidade e das atitudes dos pais é preocupante.

Casos absurdos

Dois casos merecem análise.

Adolescentes queimaram um índio vivo pelo simples prazer de vê-lo agonizando. A notícia ganhou o país e o mundo, os pais responsáveis cuidaram de defender os filhos e nem se importaram em avaliar o que fizeram de errado. Ficou no ar uma espécie de “… o que um índio fazia dormindo num bando de ponto de ônibus …” A sociedade ficou dividida. Acreditem.

Duas meninas de quinze anos foram alvo de uma reportagem no interessante do Correio Braziliense. Uma que nasceu e vivia no setor luxuoso de Brasília e nunca havia visitado as cidades satélites,mas conhecia a “Disneylândia” e outros países e outra que nasceu e vivia numa cidade-satélite e nunca visitou o plano piloto e pediu à mãe, como presente de quinze anos, visitar Brasília. A história revelou, por exemplo,  que a menina do luxo não imaginava que existiam vendedores de picolé nas ruas. Pensava que só nas praias e sorveterias de shopping tinha este tipo de pessoa. Uma conhecida da garota pobre escreveu para o jornal pedindo ajuda pois a mãe da garota pobre não teria dinheiro para a passagem de ônibus do “presente” de aniversário.

Características

A geração que está sendo alimentada pela superproteção tem as seguintes características:

  • Imediatismo. São extremante intolerantes ao planejamento, análise e cooperação. Querem tudo a tempo e a hora. Querem respostas como os computadores respondem aos seus comandos de busca.
  • Impaciência. São pouco receptivos a respostas negativas. Pais super-protetores tem dificuldade em dizer não. Transferem a responsabilidade para professores e empregadas. Qualquer coisa que não saia como planejado vira motivo de insatisfação.
  • Desinteresse. Crianças e adolescentes tratados com obtenção de tudo que querem ser conseguido sem esforço provoca aquele sentimento de desinteresse pelo resto que não lhe é fornecido. Não se interessam no custo de cada coisa que lhes é ofertada pois não precisam fazer esforço nenhum para obter. Daí crescem desinteressadas por tudo que exija esforço.
  • Ignorância seletiva. Como recebem tudo de mão beijada, como não precisam se esforçar para as coisas que precisam, estas crianças e adolescentes são capazes de falar dois ou três idiomas, praticar esportes de alto nível mas não conseguem ir de um lugar para outro sem ajuda dos pais. Não sabem nem qual transporte público usar em caso de necessidade. Não sabem nem como funcionam os serviços públicos de sua cidade.
  • Rebeldia. Insatisfeitos ao terem seus desejos não atendidos, começam a se rebelar. Começa com aquela birrinha feita em público, e não repreendida, e vai para efeitos mais perversos como uso de drogas ou álcool para mostrar que não se conformam com um não.
  • Transtornos. Neste contexto, os chamados transtornos começam (na realidade, já tomaram conta) a ficar na pauta de cada pai e mãe. Não conseguem resolver e identificar estes transtornos nas crianças, tem dificuldade de tratá-los na adolescência e temos hoje adultos com vários atributos destes transtornos trabalhando nas organizações ou nas faculdades.

Redes Sociais

A explosão tecnológica com os celulares na década de 1990 e das redes sociais a partir de 2000, provocou o recrudescimento deste comportamento de superproteção. A permissividade, falta de autonomia, egocentrismo, vitimização e outras características estão aí pulando nos perfis das redes sociais. Pais que permitem filhos menos de 12 anos terem perfis em redes como Facebook e outras são criminosos, negligentes e irresponsáveis.

Crianças começam a herdar características dos pais super-protetores e despreparados, mesmo que estes pais tenham educação formal e cultural, dinheiro e acesso a ajuda profissional.

Qual o limite da proteção dos pais na criação dos filhos?

Tudo de mão beijada é a melhor educação?

As crianças, adolescentes e muitos adultos não estariam demonstrando a educação que receberam na vida familiar nas redes sociais de hoje?

As ocorrências que vemos nas redes sociais são reflexo da sociedade. Com acesso universal a redes sociais onde basta um equipamento de telefonia móvel e um número telefônico que nem exige saldo para ligações telefônicas, os comportamentos começam a se acirrar. A sociedade brasileira não está preparada para este mundo “novo”.

Charge: Renato

 

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