Maldita Inclusão Digital - Kemp

Inclusão Digital – “mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa”

Inclusão Digital

Em primeiro lugar, confesso que tentei ser fiel aos meus sentimentos de inclusão social e digital. Comecei a atuar com tecnologia bem cedo, primeiro destruindo coisas para saber como funcionam, depois tentando construir de forma melhorada, bem no espírito hacker. Assim foi minha práxis desde os tempos de ensino médio técnico na antiga escola técnica;  e jamais imaginaria que um dia eu fosse pedir perdão pela culpa de ter brigado pela maldita inclusão digital que presenciamos atualmente.

Maldita Inclusão Digital

Alguma pessoas criticam a mim ou criticam o que escrevo pelo uso da palavra MALDITA como prefixo de inclusão digital. Certamente, os que criticam, ainda não entenderam da missa metade e se acham os conhecedores da matéria; talvez pelo fato de que são ágeis com os dedinhos no manuseio de redes sociais.

A Internet, a inclusão digital e as redes sociais tem coisas boas?

Claro que sim, entretanto, na balança do bem contra o mal, não existe “fiel” e tampouco linha de separação que delimita este dilema da inclusão digital.

Princípios

A história do que eu fiz pela inclusão digital é longa, mas poupá-los-ei de reminiscências para que leitores exigentes e ávidos por estorinhas rápidas (tipo tuite de 140 caracteres). Quem não gosta de ler, ou não consegue, pode encerrar por aqui e nem precisa pular para o último parágrafo. Esse não é um texto que proclama “conclusão” ao final, portanto presta-se a fazer com que as pessoas PENSEM.

Telecentros

Dando alguns saltos na história, acredito que o denominado “Bug do Milênio” seja a referência mais apropriada para contextualizar a questão da inclusão digital que pratico.

Pouco antes do evento Y2K (mais uma sopa de letrinhas parida por tecnocratas !).  A organização de Informática Pública que eu atuava decidiu fazer uma atualização dos micros para muito além dos que estavam com “defeito” pelo “bug”. Tenho grande parcela de culpa quando me dispus a coordenar parte do projeto e pensar na utilização de equipamentos ainda utilizáveis pelos excluídos digitalmente

Desse modo, pensamos na recomposição de equipamentos e utilização de Software Livre para construção do que chamamos à época de Telecentros. Imaginávamos contribuir para a inclusão digital de maneira revolucionária, a prefeitura aproveitando seus ativos de hardware, software livre e a própria comunidade se apropriando destes recursos. Assim sendo, o telecentro da Pedreira Prado Lopes foi exemplar e produziu histórias maravilhosas.

Por outro lado, como nem tudo são flores, mesmo nestes espaços, a utilização para coisas menos “nobres” ganhava corpo e a minha decepção aumentou com o advento do malfadado Orkut.

Profissionais de TI

A princípio eu tinha uma esperança de que os profissionais de TI, notadamente os alinhados com as causas sociais, veriam nas novas tecnologias, redes sociais e assemelhados uma oportunidade. Fiquei surpreso com a quantidade deste profissionais que pensava (e ainda pensam) de maneira corporativa, tacanha e limitada. A primeira reação da maioria destes profissionais era do tipo: “… que legal, vai dar para economizar dinheiro para comprar outras coisas…”.

Nesse ínterim, eu já atuava com ferramentas de EaD e candidatei-me a uma vaga de professor numa instituição de ensino privada. Levei a proposta de EaD e fui excluído do processo por ter ideias inadequadas para o propósito deles. Conseguimos (os valorosos fiéis de TI que participaram dos projetos) tocar em frente, mas a ameaça das redes sociais e da falsa inclusão digital foram muito maiores. Ainda hoje, a maioria dos profissionais da Informática Pública, entendem do assunto e são analfabetos funcionais para esta correlação e transversalidade.

Semiexclusão (*)

O termo semiexclusão foi apropriado a partir do texto-base para discussão de propostas para eleições municipais e que motivou uma revisão em termos e adequação de alguns conceitos no post original.

Anteriormente, utilizei muito da expressão maldita inclusão digital e de analfabetos funcionais e digitais. Inegavelmente, esta abordagem era por demais agressiva e feria muitas susceptibilidades pois as pessoas não admitem ser ignorantes em nenhum assunto.

Uma vez que a maioria das pessoas hoje tenham um número de telefone móvel e utilizam aplicativos como Whatsapp ou Instagram com seus parcos créditos, elas podem ser consideradas incluídas digitalmente?

Certamente, não são incluídas, nunca foram e nunca serão. Não basta ser ágil com os dedinhos se não conseguem entender o contexto político e social ao qual estão subjugados.

Por exemplo, aquele eleitor que recebe falsas notícias (aka fake news) de alguém que ele nem conhece e que pode ser um perfil falso, e compartilha em seu grupo de amigos, de trabalho ou família.

Pode este cidadão-eleitor ser considerado incluído digitalmente em sua plenitude?

Definitivamente, não pode ser considerado nem semi-incluído digitalmente, é apenas um analfabeto digital, quiçá analfabeto político e funcional que não tem espelho em casa.

Falsa Inclusão Digital

Alguns conceitos, em decorrência de debates, pesquisas e estudos, mudam em 24 horas. Tenho elaborado um glossário de termos, gírias e palavras na Internet o que tem sido muito difícil, utilizamos um termo hoje e amanhã significa outra coisa. As pessoas estão confusas e, de fato, são despreparadas para este mistifório de informação, tecnologias, aplicativos ( ver “Mistifório das Redes Sociais” ) onde coloco uma pitada deste debate com o propósito de abrir mentes e corações.

Esta falsa inclusão digital deu a estes eleitores incautos a falsa impressão de que estamos numa democracia. Decerto não caíram na “real” e desconhecem a questão de que estamos numa democracia guiada.

Como resultado, vemos desempregados se transformando em motorista ou entregador de aplicativo e se achando empreendedor. Escondem, sabe-se lá se com vergonha ou involuntariamente, que sua atividade profissional ficou precária, arrumou um subemprego e pensa ser empreendedor.

As desigualdades sociais, econômicas e todas as outras atividades do ser humano estão sendo aprofundadas com esta maldita inclusão digital. Inexiste a mínima possibilidade de debate em algumas redes sociais e muitas pessoas que teriam condições estão abandonando as redes.

Em suma, parafraseando Nélson Rodrigues, “… a maior desgraça da inclusão digital é que ela trouxe à tona a força numérica dos idiotas que são a maioria da humanidade …”.

Mea culpa, Mea culpa, mea maxima culpa

Enfim, peço desculpas a todos aqueles(as) que não consegui, ao longo de minhas atividades profissionais de TI, transmitir esta mensagem. A posição do semi-incluído é pior do que a do ignorante que rejeita qualquer tecnologia ou rede social. Por outro lado, fica terrível e impossível aceitar que muita gente, muitas categorias profissionais e um número expressivo portadores de tecnologia “de ponta”, se considerem incluídos digitalmente.

Inexiste a possibilidade de inclusão sem o autoconhecimento da realidade em que se está inserido; e consequentemente da visão interna dos problemas, dificuldades, facilidades e manipulações. Negligenciamos na educação inclusiva, seja ela social, digital, emocional, colaborativa, cooperativa, ou seja, falhamos miseravelmente quando acreditamos no “país do futuro”.

A inclusão digital era (ainda pode ser mas tenho poucas esperanças) de que os termos como educação, justiça, diversidade, respeito, diferenças, convivência, tolerância, paz, cooperação, colaboração pudessem ser aplicados. Entretanto, o que se tem verificado é exatamente o contrário (as recentes eleições provaram isto); as redes sociais provaram isto, acirrou-se o que descrevi em “Fla-Flu desde as Tordesilhas” com cada indivíduo querendo melhorar passando por cima dos outros.

Por isso, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa … mas não tenho nenhuma “culpa” pelos resultados das eleições recentes.

 

P. S. Texto revisado, acrescido e atualizado em 1out2020 (*)

 

Charge: Kemp in InclusãoDigital.SC

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