Mariana - Lições Não Aprendidas

Não foi acidente – Lições não aprendidas

O Crime – Parte 2

Quantos episódios são necessários para que lições não aprendidas demonstrem um serial killler?

Estou em débito com meus poucos leitores e seguidores. Os motivos são vários, sobretudo porque entrei até num recesso sobre polêmicas e não-polêmicas relacionadas à política. Entrei em recesso no final do ano e voltaria somente após os tais “cem dias de governo”. Não porque eu estaria “dando um tempo” às críticas. Mas sim porque adotei a teoria de uma amigo sobre os caras se bastarem e nem precisarmos de combatê-los. A merda foi feita no mês de outubro, poucos dias antes dos três anos do crime de Mariana.

Alea jacta est !

O Crime Anterior

Primeiramente, a trilha a que me propus, a original, é sobre o crime de Mariana, cometido pela Samarco. Tenho feito posts todo dia 5 de cada mês, desde fevereiro, quando inaugurei meu blog pessoal. A motivação foi ver que a mídia esqueceu rapidamente aquele crime e as vítimas ficaram em desamparo. Chegou-se ao cúmulo de parte das populações de atingidos, culparem as vítimas pelo crime como se estivessem abusando da Samarco.

Surpreendentemente, vi o escárnio sobre as vítimas do crime crescer de maneira assustadora. Certamente, não foi um acidente tornou-se mais um crime sem castigo para os criminosos. As vítimas de Bento Rodrigues, Fundão até a foz do Rio Doce no Espírito Santo sabem disso. Parte da Polícia Federal, Ministérios Públicos e outras pessoas do Judiciário sabem disso. Tanto que áudio do candidato derrotado nas eleições de 2014 e arquiteto do golpe, vangloria-se de ter “emplacado o novo presidente da Vale”, com a conivência de acionistas majoritários.

Escrevi, anteriormente, citando Montesquieu: “… a injustiça que se faz com um, é uma ameaça que se faz a todos …”. De acordo com as estatísticas, no caso de Mariana, 19 vidas foram levadas, um corpo não encontrado. Um crime cometido contra todos os brasileiros e que fica pior quando uma nação inteira se cala ante a impunidade dos poderosos e muda o foco para outro crime.

Lições não aprendidas

O que vimos acontecer, nesse meio tempo, e que a maioria das pessoas, inclusive aqueles que estão na tal RENOVA, não viram ou não deixaram-nos ver. São lições que não quisemos aprender ou não serviram para nos ensinar nada. Em outras palavras, somente agora, após o crime de Brumadinho, temos olhos para as mesmas condições que tivemos em Mariana e que estão presentes em todo o país.

Quanto tempo vai demorar para a mídia “esquecer” estes problemas. Os telejornais que suspenderam toda sua rotina por causa de Brumadinho, já voltaram ao normal após 10 dias. Chegamos a ver casos absurdos da população e da mídia, como se fossem normais. Ou causando interjeições de apresentadores que derramavam hipocrisia.

Lição 1

Barragens a montante – A construção de barragens à montante significa que a vida (humana e da natureza) está à jusante. Além disso, apresentam uma técnica de maior risco e maior dano. Não obstante, colocam pessoas, animais e natureza à jusante significa que deve-se ter o risco diminuído em caso de rompimento da barragem. Por outro lado, a preocupação da mineradora (Mariana, Brumadinho, São Gonçalo do Rio Abaixo, Itabira etc etc etc) é dar melhores margens de lucro aos acionistas, por isso, vale a barragem de menor custo financeiro. Cidades próximas das barragens foi uma lição importante que não assimilamos.

Lição 2

Sirenes mudas – O estouro de uma barragem à montante é previsível. Antes mesmo do estouro de uma barragem, deveria haver mecanismos de proteção e aviso, como um tsunami. A Samarco não tinha nenhum mecanismo de aviso muitos se salvaram, outros (19) pereceram. Será que o responsável pelo acionamento estaria almoçando e sem ninguém para cobrir sua ausência? Será que combinaram com o acaso para não estourar no horário do almoço? Avisos, com sirenes ou não, caros, simples ou complexos, são necessários, se tivéssemos este item nas lições aprendidas. Logo após crimes como estes, fechar a operação de barragens não vale de nada, as barragens continuam lá, sem sirenes e alertas. #FicaaDICA.

Lição 3

Rota de Fuga – No caso de Mariana, como muita gente conseguiu salvar-se, e as áreas mais habitadas estava distantes (como Barra Longa) muitos salvaram-se. A ausência de um Plano de Evacuação, um Plano de Contingência, uma Rota de Fuga foram minimizadas. A sirene não acionada ou acionada tardiamente, seria o aviso para iniciar o Plano de Salva Vidas. Qualquer técnico de segurança do trabalho sabe como fazer. Existem Engenheiros especializados que analisam cada área de risco e consequências. Da mesma forma, mais uma das lições não aprendidas que não soubemos nos apropriar. Em Mariana, que tinha algum telefone de moradores de Bento Rodrigues, Barra Longa e localidades seguintes avisou e a notícia correu. Mas nada que pudesse ser avaliado como um arremedo de plano de contingência.

Lição 4

Auto Fiscalização – Inegavelmente, o Brasil é um país em que grandes corporações ditam as regras da sociedade visando lucros desmedidos. A criação de bancadas defensoras de interesses particulares (bancada da comunicação, bancada da bala, bancada dos latifundiários etc) não pode ter os mesmo propósitos da população. Alguns dizem que os fins justificam os meios. Parcela da população acha que pode ser um dos integrantes das oligarquias e até compram ações de empresas como a Vale para ficarem “ricos”. Estes políticos definiram que as barragens de rejeitos poderiam ser fiscalizadas pelas próprias mineradoras, com o propósito de burla e má-fé. Como diria um certo personagem de filme: VAOI DAR MERDA! E deu… mais das lições não aprendidas ou muito mal percebidas pela população que segue votando nos que aprovam este tipo de projeto, tudo em nome do desenvolvimento.

Lição 5

Licenças Ambientais – As mineradoras tem pressa, nem bem exaurem determinada área de exploração, querem outra, mais outra e mais outra. Licenças com requisitos mais firmes por parte do meio ambiente, da população consciente são empecilho e “burocracia”. Com toda a certeza, mais um capítulo de lições não aprendidas foi a aprovação da licença ambiental da barragem de Brumadinho e a adesão de grande parcela dos moradores de Mariana para retorno do funcionamento de Fundão. Estas pessoas estão pensando no valor da ação da Vale, Samarco, BHP ou nas vidas humanas, animais e ambientais à jusante. Estivessem pensando no ambiente dos possíveis atingidos, não teríamos algumas pequenas tragédias do dia-a-dia, tratadas como “normais”.

Prevenir ou remediar

Decerto, entre outras tantas lições não aprendidas, não conseguimos pensar (a maioria das pessoas) além do próprio umbigo. A criação e a ação da tal Fundação Renova mostrou um engodo. Não nos ensinou a prevenir e muito menos como remediar. Perdemos nosso grande Rio Doce e agora o Paraopeba. Querem licença para uma barragem que pode, se rompida, acabar com o Rio Das Velhas e o Velho Chico.

Ainda que eu tenha apresentado, diretamente à Fundação Renova, projeto de apoio e recuperação de comunidades às margens do Rio Doce, que serviriam para grande parte da população ribeirinha do Rio Paraopeba, nenhum retorno foi oferecido.

O que foi feito destas ideias/propostas?

Como se não bastasse, nem um cartinha do tipo: Agradecemos sua colaboração, se viermos a implementar esta ideia, entraremos em contato. Nem para um destes tecnocratas estúpidos pegar a proposta e falar que era dele. Não tinha importância, queria, como sempre fiz em minha vida profissional, que alguém pegasse a ideia e melhorasse. Melhoraria a vida das pessoas atingidas por estes crimes. São lições não aprendidas que devem fazer a diferença.

Continuarei falando de Mariana, uma vez que ainda existem pessoas sendo humilhadas pelo crime. Ver crianças serem segregadas pelos seus próprios conterrâneos nas escolas é degradante. O número de atingidos com o crime de Brumadinho será muito maior. Não aprendemos nenhuma lição com Mariana e o povo de lá não merece o que fizeram com eles nestes três anos.

Avisos

  1. acionista da Vale, advogado que defende este crime da Vale ou político e cidadão que fala do “papel importante da Vale” é tão ou mais criminoso quanto os oligarcas da exploração mineral neste país.
  2. Os criminosos a serviço da Vale, como os “fiscais” da empresa TUV SUD são tão ou mais criminosos do que os empregados da Vale que negligenciam a segurança das barragens;
  3. Autoridades Públicas (Federal, Estadual e Municipal) que por ação ou omissão, estão no rol de responsáveis, COPAMs, áreas de Meio Ambiente, Ministério Público, Fiscais são tão ou mais criminosos do que os acionistas e dirigentes da Vale;
  4. Aplicar multas e não executá-las, tornar indisponível receitas e liberá-las com uma simples canetada de um juiz “amigo” é coisa de gente criminosa e que joga para a mídia fazer notícia e deixar cair no esquecimento.

Em suma, não nos esqueceremos das lições não aprendidas e que NÃO FOI ACIDENTE. Não se assustem se Febre Amarela e outras pragas começarem a surgir e a mídia atribuir ao “acaso” ou desígnios divinos.

Em síntese, se não houver representantes com poder de veto e voz plena em instâncias como Meio Ambiente, Copam, Renova e quejandos, nada feito. Afirmo, sem medo de errar, que não aprendemos lição nenhuma. Saímos do maior crime ambiental da história do país para o segundo maior. Alguém tem vergonha disso?

P. S. Com muita tristeza leio que funcionários da Vale, presos por conta do crime de Brumadinho, já estão soltos, enquanto os criminosos de Mariana nem presos foram.

 

Foto: Blog Felipe Vieira Jornalista

P. S. – Reitero o pedido feito na página de “Advertências” deste espaço virtual. Observações, sugestões, indicações de erro e outros, uma vez que tenham o propósito de melhorar o conteúdo, são bem vindas. Coloquem aqui nos comentários ou na página do Facebook.

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