Seletividade

Não vi, não li, não ouvi e não gostei

Pedro Burgos é autor do livro “Conecte-se ao que importa – Um manual para a vida digital saudável” em que tece considerações importantes sobre comportamento das pessoas ante a avalanche de informações e a pauta ditada pela mídia e meios de comunicações nas redes sociais.  Recomendo.

Controle remoto

A TV foi acusada e educar crianças de maneira equivocada. Certo é que a ausência, preguiça ou a incapacidade de pais educarem os filhos de maneira principal ou complementar às escolas formais, levou a que tivéssemos duas gerações de analfabetos funcionais no que diz respeito ao discernimento. O controle remoto piorou as coisas pois se um programa de TV não é apropriado, utiliza-se do controle e vamos em frente. O advento da TV denominada digital, que não deveria ter somente imagem de melhor qualidade, mas deveria interagir com os telespectadores ainda não emplacou. Dificilmente vai emplacar. necessário que existam programas aptos a interagir e que< do outro lado da telinha, junto ao controle remoto, existam seres que pensem.

Ser seletivo

Caetano Veloso, algumas décadas atrás, no bojo da crítica inteligente sobre o comportamento da nossa sociedade, questionou uma banca de revistas apinhada de produtos. É comum, ainda nos dias de hoje, jornais tipo tabloide com 80% das notícias iguais, e os 20% das matérias diferentes são opiniões e não fatos.

Há muitos anos abandonei as mídias impressas. Assinava revistas e jornais. Lia muito. Tinha coleções de revistas especializadas. Quando vi produtos em CD com as coleções e matérias selecionados destas publicações, limitei-me à Internet. Só compro livros em mídia impressa. Revistas e jornais, raramente.

Mesmo com o avanço das mídias digitais, permanece a questão de Caetano, quem lê isto tudo? Pra quê? Quando? O que faz com isto?

Ser inteligente

Ser seletivo é ser inteligente, é utilizar o conhecimento adquirido para evoluir, para ajudar aos outros.

Aí vemos que se 80% (não vou falar que são 97% para não parecer pedante) da população digitalmente incluída, não é inteligente ao ponto de ser seletivo para aquilo que os outros não vêem, temos que a informação jogada na telinha do smartphone de cada um é lida ávidamente só para republicar em alguma outra rede social.

A nossa sociedade está cobrando se você tem curtidores, seguidores e afins, tudo pela quantidade, nada pela qualidade. Muita gente preocupada com as curtidas e não com as leituras de cada texto.

Ser ignorante

Aí surge uma via interessante, aquele que teria potencial para ser inteligente mas prefere ser o ignorante seletivo. Parece que tem sido a versão mais simpática da rede.

Existem alguns sites que desvendam o que denominamos farsas das redes sociais (e-farsas e boatos.org são dois exemplos). Aí quando vemos algum conhecido, ou alguém de suas relações virtuais, publicando ou compartilhando uma mentira, ou notícia que restou provado ser falsa, acaba-se por cultivar um inimigo. Ninguém gosta de ser desmascarado em redes sociais, as pessoas atuam como personagens psicóticos defendendo a própria opinião.

Então resta ser um ignorante seletivo. Aquele que sabe de determinado assunto, vê lacunas ou inconsistências no raciocínio daqueles 80%, mas tem que ficar calado, ficar quieto. A ditadura e pressão para que você não se manifeste, não promova o debate, não prospere na discussão, é aterrorizadora. Pior de tudo são as explicações para as gafes e barrigas cometidas. Tem gente que não assimilou ainda a diferença entre ser ser seletivo, ignorante e inteligente, além das variantes da junção destes termos. É certo que muita gente com potencial prefere ser modinha e ter muitos seguidores. Talvez seja mais valioso para ególatras ter 2 milhões de seguidores sorteando brindes do que ter gente inteligente ao redor.

Sendo seletivo

Ainda não me acostumei. Vou continuar insistindo no conhecimento livre. Vou continuar repetindo e praticando a tentativa de ampliar os horizontes das pessoas. Pode parecer presunção, mas meus resultados não são medidos por likes e shares, prefiro dislikes com argumentos. Não creio que ser seletivamente ignorante seja algo de inteligente.

Foto: www.papodehomem.com.br

 

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