Entre sem Bater
Este é um texto da série “Entre sem bater” ( ← Uma leitura, acima de tudo, “obrigatória” ). A cada texto, uma frase, citação ou similar, que nos levem a refletir. É provável que muitas destas frases sejam do conhecimento dos leitores, mas deixaremos que cada um se aproprie delas. Entretanto, algumas frases e seus autores podem surpreender a maioria dos leitores. A vantagem dos “Sonhos” é que eles nunca morrem, e Hilda Hilst sabia mantê-los.
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As frases com publicação aqui têm as mais diversas origens. Com toda a certeza, algumas delas estarão com autoria errada e sem autor com definição. Assim sendo, contamos com a colaboração de todos de boa vontade, para indicar as correções.
Na maioria dos casos, são frases provocativas e que, surpreendentemente, nos dizem muito em nosso cotidiano. Quando for uma palavra somente, traremos sua definição. Por isso, em caso de termos ou expressões peculiares, oferecemos uma versão particular. Os comentários em todas as redes sociais podem ter suas respostas em cada rede e/ou com reprodução neste Blog.
Hilda Hilst
A poetisa, assim como a maioria delas, pensava fora da caixinha e seus poemas refletem estes pensamentos disruptivos. As ideias sobre os sonhos, assim como outras de Hilda Hilst são, com toda a certeza, inspiração para que as pessoas façam reflexões sérias. A diversidade de ideias que tratava em seus escritos é uma fonte eterna de liberdade de expressão e pensamento.
Hilda de Almeida Prado Hilst (21 de abril de 1930 – 4 de fevereiro de 2004) foi uma poetisa, romancista e dramaturga brasileira. É elogiada como uma das mais importantes autoras de língua portuguesa do século XX. Seu trabalho aborda os temas do misticismo, da loucura, do corpo, do erotismo e da liberação sexual feminina. Hilst reverenciou muito o trabalho de James Joyce e Samuel Beckett, e a influência de seus estilos – como fluxo de consciência e realidade fraturada – é evidente em seu próprio trabalho. Nascida em Jaú, São Paulo, Hilst formou-se na Universidade de São Paulo em 1952. Enquanto estudava lá, publicou seu primeiro livro de poemas, Omen (Presságio), em 1950. Decidida a dedicar a vida às criações literárias, construiu a sua casa – apelidada de Casa do Sol – onde convidaria vários artistas e intelectuais para viverem. Escrevendo mais de quarenta obras ao longo de sua vida, ela foi uma das escritoras mais prolíficas de sua geração.
Wikipedia (Inglês)
Os Sonhos
Inquestionavelmente, sonhar é muito bom, especialmente aqueles sonhos que alimentam e motivam as pessoas a evoluir. Quando não é um sonho para evoluir ou pensamentos não agradáveis, podemos chamar de pesadelo. Alguns dias atrás, uma pessoa me perguntou sobre ter abandonado alguns sonhos ou não usar a persistência para realizá-los.
É provável que, em muitos casos, nunca devem sair da nossa mente, deveriam manter-se lá no fundo do cérebro ou no isolamento(1).
Por outro lado, o espírito inovador e inquieto de cada pessoa, não é uma combinação com a ideia de sonhar ocultamente.
Os sonhos, como fios de prata que se entrelaçam com a nossa existência, são o combustível da alma. Eles moldam nossas aspirações, impulsionam nossas ações e nos permitem vislumbrar um futuro que, muitas vezes, parece tão distante.
Contudo, há uma questão crucial que surge quando sonhar é a nossa tarefa: devemos revelá-los ao mundo ou trancá-los em nossa mente?
Hilda Hilst entende, sem dúvida, que alguns devem ficar em cofres secretos, gavetas com trancas e ocultos até o fim da nossa vida.
Essa dicotomia entre a exposição e o sigilo é uma decisão a partir da reflexão pessoal e complexa com desafios intrigantes.
Revelação
Com toda a certeza, a decisão de expor nossos sonhos ao mundo é um ato de coragem(2) e que nem sempre é recomendável. Aqueles que optam por compartilhar abertamente alinham-se à ideia de motivação e conexão com os outros sonhadores. Desse modo, é possível que desejos de realização não sejam individuais e ganhem corpo e sejam coletivos.
Desse modo, quando expressamos nossos pensamentos, eles ganham vida, transformando-se em objetivos concretos e alcançáveis. Ao divulgar nossas aspirações, tornamo-nos mais suscetíveis à influência e apoio daqueles ao nosso redor. Assim sendo, cria-se uma rede de apoio que pode nos ajudar a superar obstáculos comuns.
Como se não bastasse, expô-los inspira e motiva outras pessoas a sonharem coletivamente. Quando vemos alguém perseguindo ativamente seus sonhos, isso nos encoraja a fazer o mesmo. A partilha de metas e objetivos serve como uma luz guia para aqueles que estão em busca de direção e inspiração em suas próprias vidas.
Portanto, compartilhar sonhos não é apenas um ato de coragem, mas um gesto de generosidade, contribuindo para um mundo mais inspirador.
Riscos
Ser transparente é sempre bom, no entanto, há desafios inerentes à exposição dos nossos sonhos. À medida que compartilhamos nossas ambições, também nos tornamos vulneráveis à crítica e à desaprovação. A sociedade nos julga com base em sua própria visão tacanha do que é possível, ignorando as nuances individuais. Desta forma podemos ter sentimentos de inadequação e até mesmo desistirmos de nossas ideias, sob a pressão do julgamento alheio.
Além disso, quando nossos sonhos são transparentes, há uma pressão adicional para alcançá-los. Essa pressão pode ser avassaladora e, em alguns casos, sufocante, especialmente quando são ambiciosos e de longo prazo. A sensação de fracasso público pode ser devastadora e desencorajar até mesmo os mais resistentes.
Por outro lado, a decisão de manter os sonhos em segredo, trancados em gavetas da alma, também possui argumentos interessantes. Os defensores do sigilo argumentam que isso protege a pureza e a intimidade dos nossos ideais. Ao manter nossas aspirações longe do escrutínio alheio, podemos preservar a magia e o caráter sagrado desses sonhos.
Ocultação
O sigilo dos sonhos também oferece uma sensação de controle e liberdade. Não estamos sujeitos ao julgamento externo ou à pressão para realizar, permitindo-nos explorá-los em nosso próprio ritmo.
As pessoas que expõem seus sonhos misturam-se, perigosamente, com as pessoas que mentem nas redes sociais. Ocultá-los evita, por exemplo, a necessidade de justificativas constantes que imperam no mundo digital. Desse modo, cria-se um espaço seguro para a experimentação e o crescimento, sem a pressão da performance pública.
No entanto, mantê-los em segredo também tem seus próprios desafios. A falta de cobrança externa pode levar à procrastinação, uma vez que não há pressão para seguir adiante. Além disso, a solidão que acompanha o sigilo é sufocante na maioria dos casos, especialmente quando os sonhos podem virar realidade.
Os sonhos não compartilhados não podem colher os benefícios da conexão com outras pessoas. Certamente, a falta de apoio externo e partilha torna difícil a superação dos desafios que inevitavelmente surgem.
Outro aspecto a considerar é que, ao mantê-los em segredo, privamos o mundo de nossas contribuições potenciais. Muitos avanços e inovações vêm da coragem de indivíduos que compartilharam seus sonhos com o mundo. Ao escondê-los, podemos estar negando ao mundo a oportunidade de se beneficiar de nossas visões e paixões.
Equilíbrio dos Sonhos
A resposta à questão de revelar ou guardar segredos sobre nossos sonhos não é uma escolha definitiva. Sem dúvida, é uma decisão a partir de reflexões pessoais, que podem avançar com o tempo e experiência de cada um. Às vezes, pode ser benéfico compartilhá-los com confiança e discernimento. Por outro lado, em outras situações, é sábio e necessário mantê-los secretos, temporariamente ou até o fim da vida.
Uma abordagem equilibrada pode revelar sonhos seletivamente, compartilhando-os com pessoas de confiança e que realmente nos apoiam. Entretanto, em tempos de pecados originais se transformando nas redes sociais, confiar é um risco.
Podemos, raramente, colher os benefícios do apoio aos nossos sonhos, e ao mesmo tempo em que protegemos a pureza e a intimidade deles.
Em suma, é importante lembrar que esses sonhos são nossos e o compartilhamento pode diminuir o egocentrismo que praticamos. É uma posição de cada um e, no meu caso, prefiro compartilhar para que sonhos coletivos prosperem. Por experiência própria, na maioria dos casos, esta não é a ideia que sobrevive e triunfa. A maioria das pessoas está numa espiral de individualismo que não tem abertura para compartilhamento de ideias e ações.
Vivemos, com toda a certeza, no “século do ego” e do salvem-se quem puder, roubando sonhos e ideias alheias.
Enfim, o que importa é que continuemos a sonhar e a persegui-los com paixão e determinação. E, no final das contas, talvez a verdadeira magia dos sonhos reside na maneira como eles iluminam o nosso caminho. É provável que ocultos nas gavetas das nossas mentes ou expostos à luz do dia nunca se realizem, são sonhos.
Cuidado com os segredos e revelações, pois o “siga sua paixão“(3) nem sempre é bom conselheiro.
P. S.
Hilda Hilst era muito próxima a Lygia Fagundes Telles. É provável que quando Lygia escreveu sobre as feridas abertas(4), a relação com a revelação de sonhos fosse um fato.
(1) “Isolamento e uma mente inquieta”
(2) “Entre sem bater – François de la Rochefoucauld – Coragem”
(3) “Siga sua paixão. #SQN”
(4) “Entre sem bater – Lygia Fagundes Telles – Feridas Abertas”
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Imagem: Entre sem bater – Hilda Hilst – Os Sonhos
Nota do Autor
Reitero, dentre outras, o pedido feito em muitos textos deste blog e presente na página de “Advertências“.
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