Sujeito de Sorte
Sujeito de Sorte é o nome de uma música do falecido compositor, polêmico e pensador, Belchior. A frase refrão “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro …” está colada na proposta do documentário do rapper Emicida, de show realizado no Teatro Municipal. Este texto vem bem a propósito do que vivemos anteriormente e os desejos de cada um para o ano que se inicia.
A letra é simples e na gravação mais aclamada, os versos são repetidos três vezes e a frase-chiclete outras tantas.
Por Belchior
Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço
me sinto são e salvo e forte
Tenho comigo pensado Deus é brasileiro
e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer no ano passadoTenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro
(bis)(BIS)
Pode parecer chavão ou um festival de frases feitas, entretanto não é e passa muito longe disso. O que a maioria da nossa sociedade consumista e preconceituosa não vai enxergar é que no filme, no disco e na vida, aquilo tudo é real. Nos mínimos detalhes, nas pequenas frases como “Tudo que nois é nois” temos a representação da nossa vida, especialmente em 2020.
A luta contra o racismo, o combate diuturno ao preconceito social, as guerras diárias travadas contra homofóbicos, misóginos e toda a fauna de enrustidos que saíram do armário após as eleições de 2018 tem sido inglória. A violência, amparada pelo autoritarismo e estado policialesco, cresceu assustadoramente ano passado, ainda bem que não morri.
Com toda a certeza, Emicida é um ativista de qualidade superior e que usou seu álbum AmarElo para mostrar ao mundo o que acontece no Brasil. Independente da minha opinião sobre a qualidade do trabalho, e como não sou crítico de cinema, posso dizer que ninguém sai com a mesma cabeça depois de ver o filme e ouvir “É tudo pra ontem”.
Ano passado é passado
Em primeiro lugar, passado é passado mesmo, o filme e proposta de Emicida não falam somente do ano passado, traçam uma trajetória e resgatam a história centenária de sofrimento, sem vitimismo.
A participação de Najur e Pabllo, especialmente na interpretação de “Sujeito de Sorte” dão um tom diferenciado e significado superior às questões de igualdade, representatividade e empoderamento. Valorização adequada da cultura negra no Brasil, que nenhum livro de história tem coragem de contar.
Enfim, a obra musical e cinematográfica é uma celebração digna e que honra nossas raízes negras, exemplo a ser seguido por aqueles que desejam fazer diferente com inteligência.
Pandemia do ano passado
O ano da pandemia (2020) que mudou a história da humanidade em tempos de redes sociais estultas e rasteiras pode se repetir, a partir de hoje.
Certamente, nunca saberemos se a obra de Emicida teria tamanho simbolismo sem a pandemia. Por outro lado, ao vermos o que pode acontecer neste novo ano, especialmente no Brasil com negros, mulheres, pobres e menos favorecidos, não temos a coragem de sermos sinceros nos votos de um feliz 2021.
Em suma, tô nem aí para a obra de arte que foi o filme, só relaciono o que vejo em conteúdo com a nossa vida real. Só digo que “ano passado eu morri, este ano não morro …” e, portanto, sou muito mais Emicida do que Anitta, #FicaaDICA !
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Imagem: Reprodução AmarElo
Nota do Autor
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