Projeto Cooperado - Saúde 4.0

Projeto Cooperado – Saúde 4.0 de Verdade

Projeto Cooperado

Parece que foi no século passado, OPS ! se bem que foi no milênio passado que tudo aconteceu e até já comemoramos “Bodas de Prata”. Estou falando de uma iniciativa denominada Projeto Cooperado que foi urdida nos porões de empresas públicas ainda que fossem denominadas como processamento de dados. Isto mesmo, no início dos anos 1990, a Informática Pública ( Cepik, Eklund, Eisenberg ) era conduzida por empresas de processamento de dados, só para se ter ideia de como somos “inovadores” hoje.

Informática Pública

Naquele tempo, acima de tudo, a Internet dava seus primeiros passos no Brasil e a cooperação entre empresas de Tecnologia da Informação ( TI ) começava a se livrar dos equipamentos jurássicos de grandes empresas como IBM, Burroughs (1) e outras.

O fruto de um Projeto cooperado foi o denominado “Sistema Cooperado de Saúde“, um trabalho conjunto das Prefeituras de Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e Recife. Suas Secretarias Municipais de Saúde e as respectivas empresas de processamentos de dados desenvolveram módulos específicos sobre a saúde e seus munícipes.

O Sistema do Projeto Cooperado era composto de módulos construídos em Código Aberto e procedimentos padronizados, de acordo com os processos determinados pelo SUS.

Um processo revolucionário de trabalho revolucionário e inovador, que teve apoio explícito e empenho dos profissionais das empresas Procempa (2), Prodabel (3), Prodasal (4) e Emprel (5). As referidas empresas mudaram de nome e até de atribuições, afinal, passados mais de 25 anos tinham obrigação de se reinventar.

Desse modo, este texto é um tributo àquele Projeto Cooperado que mostrou-se avançado e que se fosse respeitado pelos gestores públicos, daria ao país algo mais em tempos de pandemia. Reproduzo aqui os princípios e módulos implementados de forma a mostrar que muitos dos problemas hoje vivenciados pela população foram solucionados pela tecnologia muitos anos atrás.

Projeto Cooperado da Saúde

Vivemos tempos estranhos. Anteriormente, quando tentávamos implantar o Sistema Cooperado, até os profissionais da área da Saúde eram arredios. Atualmente sofrem de Nomofobia ( Nomofobia e Dependência Digital ), seria um benefício ou malefício das redes sociais desde que houve a explosão do mundo da informação ?

Desse modo, as premissas do Sistema Cooperado eram e ainda são atualizadas – trechos do “Manual do Usuário do Sistema Cooperado de Saúde ( SCS ) serão aqui reproduzidos integralmente.

Democratizar o acesso da população aos programas de Saúde Pública, otimizar recursos técnicos / financeiros e normatizar a crescente complexidade do atendimento à saúde são os objetivos do Sistema Cooperado de Saúde. Ao propor soluções para as demandas dos municípios que se integram ao processo de municipalização da saúde, o Sistema Cooperado torna-se instrumento fundamental no gerenciamento de informações estratégicas para melhor gestão do SUS – Sistema Único de Saúde.

Sistema Cooperado de Saúde

Reprodução – Capa Manual Projeto Cooperado

 

As características fundamentais deste sistema são a democratização no acesso às informações de saúde, a integridade dos dados e a transparência no planejamento e execução das ações. Essas características foram definidas pelos profissionais da área da saúde que desejavam um sistema de informações de manuseio simplificado e facilitador no gerenciamento , planejamento, programação, vigilância e assistência à saúde. Além disso, ele deverá permitir o monitoramento permanente e a contínua atualização dos dados.

O primeiro passo adotado para atingir estes objetivos foi a padronização de procedimentos na área da saúde. A partir daí foi desenvolvido um sistema que rompe com um clássico problema na gestão das informações de saúde: a centralização excessiva dos dados. O SCS permite que as unidades de ponta ( atendimento ao cidadão ) façam desde a captação, até a totalização e avaliação dos dados, possibilitando que também a administração central das secretarias façam as mesmas operações.

Capaz de interligar-se com outros sistemas de informação já existentes em cada município, ele permite consolidar um banco de dados para auxiliar no planejamento, controle e avaliação das ações de saúde. Outra característica fundamental é que foi desenvolvido para atuar nos diferentes estágios de municipalização do SUS, além de trabalhar com um cadastro único de usuários com padronização de endereços e com interface gráfica.

Módulos

O Projeto Cooperado previa, primordialmente, oito módulos que foram desenvolvidos e disponibilizados para cada município em função de suas necessidades de uso.

Desse modo, tudo foi colocado dentro de dois disquetes e poderia ser executado num computador com um décimo da capacidade de um smartphone dos dias atuais.

Módulo I

Infraestrutura – Continha a base de informações de infraestrutura de cada Unidade de Saúde. Em outras palavras, armazenava os recursos humanos e materiais, a capacidade de atendimento e estrutura física e operacional disponível. Desse modo, cada unidade básica de saúde teria os limites do que poderia oferecer ao cidadão.

Módulo II

Informações Individualizadas – Dados necessários ao atendimento e registro das atividades relacionadas à saúde. Informações dos pacientes, das fichas-família. Assim sendo, era possível criar o Cadastro de usuários do SUS, possibilitando ainda a formação de um banco de dados epidemiológico local e alimentador do banco municipal para ações de saúde gerais.

Módulo III

Vigilância à Saúde – A partir das informações geradas no Módulo II ações de Vigilância sanitária e epidemiológica são agregadas e servem para integração e retroalimentação de outros de sistemas de informação como SINASC (6), SINAN (7) etc.

Módulo IV

Políticas de Saúde – Uma vez que o Módulo II provê informações sobre morbidades e mortalidades, além de indicadores de produção, subsidia-se o gestor para elaboração de padrões de qualidade no atendimento, normas técnicas e outros procedimentos.

Módulo V

Controle e Avaliação de AIH – Um dos temas mais discutidos nesta data, devido a pandemia provocada pela COVID-19, é a internação hospitalar. Desse modo, a AIH ( Autorização de Internação Hospitalar ) era um dos principais módulos do Projeto Cooperado. Desde que o cidadão recebia o primeiro atendimento, com as devidas notificações de doenças, o controle de altas hospitalares, leitos disponíveis e ambulâncias para transporte de pessoas eram informações presentes no sistema.

Módulo VI

Controle e Avaliação Ambulatorial – A Unidade Básica de Saúde tem como objetivo o atendimento de primeiro nível e cada uma destas unidades têm perfil próprio. A gestão das atividades, a partir dos dados inseridos nos módulos indicados anteriormente e integração das ações clínicas direciona os serviços da Unidade.

Modulo VII

Gerência de Medicamentos – Os desperdícios verificados nas unidades de saúde até a implantação deste módulo eram enormes. Como se não bastasse, a medicação imprópria era uma fonte de doenças inadmissíveis. Por exemplo, um medicamento na farmácia de uma unidade de saúde vencia por não ter uso. Em outra unidade, do outro lado da cidade, o mesmo medicamento faltava na prateleira, o que, com toda certeza, era prejuízo para o erário municipal e desleixo com o cidadão. Do efetivo gerenciamento deste módulo, surgiram as primeiras propostas de farmácia populares e remédios genéricos.

Cross, SUS Fácil etc.

Desse modo, o que vemos hoje é que as unidades básicas de saúde aprimoraram algumas coisas e outras ficaram paradas no tempo quando mereciam mais atenção. Contudo, muitas ações como a Atenção à Saúde no caso de Diabéticos, Hipertensos, Tratamento de Feridas evoluíram absurdamente. Unidades de Saúde Básica contam hoje com profissionais de Enfermagem, Médicos e profissionais de apoio de alta qualificação e entendimento da importância de um sistema de informação eficiente.

Entretanto, a sincronia entre as esferas do Poder Público ( União, Estados e Municípios ) parece ter perdido a noção de cooperação e colaboração. Criaram-se “marcas” como o CROSS os SUS Fácil, que fazem as mesmas coisas ( ou até menos ) do que se propunha o Sistema Cooperado de Saúde.

Enfim, passados 25 anos, tem gestor dizendo que faz “Saúde 4.0” e inovação com algo que o projeto cooperado de saúde fez há muito tempo atrás. Existem até empresas privadas que se apropriaram dos conceitos do Projeto Cooperado e oferecem serviços para prefeituras.

Saúde Pública

A Saúde Pública no Brasil mudou muito nestes 25 anos, para uns melhorou e para outros piorou. Portanto, acreditamos que as pessoas sempre estão insatisfeitas se não forem atendidas em alguma coisa. Publiquei um texto manifestando-me contra um vereador que viu problema em um único centro de saúde e saiu vociferando em seu púlpito ( Wilsinho da Tabu – Serviçal da Ignorância ). Todo aquele que falar do SUS ou do trabalho destes servidores públicos da saúde, com o propósito de desvalorizá-los, terá a minha manifesta e dura opinião.

Escrever e falar sobre tecnologia não tem dado muita audiência e provocado leitura de pessoas fora da área de tecnologia. Entretanto, o assunto aqui será sobre o que a tecnologia e inovação podem fazer para o cidadão, em especial quando esta tecnologia e sistemas de informação são voltados para áreas fim como saúde, educação e outros.

Posso afirmar com muito orgulho que em minha carreira profissional, participei com pequena contribuição do projeto cooperado com o maior orgulho e dedicação. Portanto, dedico este texto aos profissionais de TI, da saúde e outros que deram, e ainda continuam dando, suporte aos processos de saúde para a população no SUS.

Tentei conseguir nomes dos profissionais de TI e da Saúde envolvidos na construção do Cooperado. Consegui alguns, o que foi insuficiente porque, com toda a certeza, iria cometer injustiças. Fica aqui o meu agradecimento, em nome da população dos municípios que foram agraciados com este sistema.

Curiosidades

Dados Técnicos

A plataforma computacional mínima necessária para funcionamento do Sistema Cooperado de Saúde, surpreendentemente, era um microcomputador 486DX com 16MB de memória RAM. A capacidade de armazenamento do disco rígido dependia do volume de dados a ser utilizado em cada local. O Sistema Operacional indicado era o Windows NT, mesmo para os casos onde não houvesse rede local instalada, pois era capaz de garantir maior segurança na utilização do sistema de informações. O banco de dados indicado era um SQL Server. O acesso a dados feito através do padrão “SQL ANSI 92“.

Reprodução Disquete Projeto Cooperado

Desse modo, todo o sistema era armazenado para instalação em dois disquetes de 3½”.

E, analogamente, hoje em dia, tem muita gente que não consegue fazer programas mais simples do que este funcionarem em 8 ou 16 GB de memória.

 

(1) A Burroughs uniu-se à Sperry Univac e posteriormente foram absorvidas e transformaram-se em Unisys.

(2) Procempa – Companhia de Processamento de Dados do Município de Porto Alegre ( RS ).

(3) Prodabel – Empresa de Informática e Informação do Município de Belo Horizonte ( MG ).

(4) Prodasal – Companhia de Processamento de Dados de Salvador ( BA ) ( atual COGEL )

(5) Emprel – Empresa Municipal de Informática ( Recife-PE )

(6) SINASC – Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos

(7) SINAN – Sistema de Notificação de Agravos de Notificação

É VERDADE

Espaço destinado a verdades em Pindorama que se contar, ninguém acredita e, provavelmente, não serão notícias boas. Será feita ao menos uma indicação por texto e, eventualmente, mais de uma poderá ser publicada.

 

Imagem: Reprodução Shutter Stock

Nota do Autor

Reitero, dentre outras, o pedido feito em muitos textos deste blog e presente na página de “Advertências“.

  • Observações, sugestões, indicações de erro e outros, uma vez que tenham o propósito de melhorar o conteúdo, são bem vindos.
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  • Algumas passagens e citações podem parecer estranhas mas fazem parte ou referem-se a textos ainda inéditos.

Agradeço a compreensão de todos e compreendo os que acham que escrevo coisas difíceis de entender, é parte do “jogo”.

 

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