100 Humanos - Netflix

100 Humanos – Comportamento normalizado

100 Humanos

100 Humanos é uma série produzida pelo canal de streaming Netflix. É um tipo de “reality show” que não tem uma premiação, mas que expõe, de maneira real, como as pessoas se comportam em nossa sociedade atual. Um programa com uma análise e avaliação  sociocomportamental de 100 Humanos voluntários e que, à princípio, não se conheciam.

Desse modo, vi a série com olhares um pouco além da diversão e tentando fazer uma aproximação destes 100 humanos com as relações pessoais e profissionais. A curiosidade que desenvolvi é sobre o quanto estas pessoas levam para o experimento das suas vidas pessoais e profissionais e quanto podem modificar no sentido inverso. Cada episódio permite algumas inferências que podem parecer mera opinião mas que alinham-se com o mundo desordenado e influenciado pelas redes sociais.

Episódios

A temporada tem oito episódios que tratam de temas que todos os 100 humanos poderiam se manifestar. Entretanto, a produção final mostra que nem todos os humanos aceitam participar ativamente de todos os temas ou “brincadeiras” propostas. Em outras palavras, a experiência é como se fosse uma enquete, em que as pessoas podem afirmar que não tem resposta ou não sabem como se posicionar. Portanto, é mais próximo da realidade do que as redes sociais onde ninguém quer ser “ignorante” e todos tem opinião sobre tudo e todos.

Acredito que alguns episódios são bem interessantes para elaboração de textos comportamentais em redes sociais, como a rede LinkedIn. Entretanto, alguns episódios são apenas diversionismo para conclusões que carecem de análise minimamente criteriosa sobre como foram montados.

Em suma, com todo respeito à produção e idealizadores, a série serve como referência para observarmos as temáticas e fazermos observações. Desse modo, descreveremos as abordagens de alguns episódios e aspectos que devem ser observados de maneira geral, em nossas intervenções nas redes sociais e na vida real.

What Makes Us Attractive?

O título traduzido deste episódio é, literalmente, “O que nos torna atraentes?” onde os participantes são instados a avaliar as pessoas pela aparência, pela profissão, pela descrição comportamental e outros atributos como a capacidade de dançar. As conclusões, baseadas em números e estatísticas, além das explicações de profissionais especialistas comportamentais, são interessantes.

The Best age to be alive

De acordo com a tradução do título original, o episódio tenta responder qual a melhor idade para se viver, baseado em relato de experiências entre faixas etárias diferentes. É provável que os idealizadores da série e roteiristas não estavam pensando em questões como o etarismo que reina na vida real e nas redes sociais. Apropriei-me de termos como Perennial Gen(1) para identificar que existem muitas coisas além da avaliação de pessoas e grupos por faixa de idade.

Enfim, este episódio é um dos exemplos em que as conclusões podem ter sido desvirtuadas para o mundo profissional e pessoal.

Let´s Talk about Sex

A tradução do título do episódio pode gerar uma compreensão equivocada do conteúdo e roteiro. O episódio trata da questão de gênero onde aqueles que aceitam participar colocam à prova alguns conceitos e preconceitos. Sob a ótica exclusiva da visão hétero, estabelece-se o que é denominado a “guerra dos sexos” – o título em português é mais apropriado. A partir de uma visão bem humorada – muito menos do que do antigo folhetim homônimo da Rede Globo – alguns mitos são confirmados ou desmentidos.

Are you biased?

Talvez, este título de episódio e seu contexto sejam mais complicados e complexos do que a leveza com que foi tratado. A tradução para o contexto pode ser como o preconceito atua no comportamento e decisões de uma pessoa em relação a quem ele não conhece. Por outro lado, uma abordagem interessante é utilizada em relação a uma pessoa que ele conhece, mas ignora, o que comprova um comportamento preconceituoso natural.

Desta forma, temos aqui neste episódio uma representação bem acabada da “normalização” que a nossa sociedade adotou para preconceitos em geral. Algumas pessoas, por exemplo, podem achar engraçado algumas situações ou comportamentos que, para outras pessoas, pode ser considerado agressivo ou desrespeitoso. Este episódio é um dos que deveria ter o posicionamento dos 100 humanos mais explícito, inclusive com o desconforto de alguns em relação ao tema.

Pain vs. Pleasure

Alguns episódios têm suas versões em ambientes específicos com outros enredos e propósitos. A questão de dor X prazer é muito explorada em “realities” que tem recompensa por esforços que levam ao limite físico e mental. Neste episódio, a abordagem é leve e é provável que tenha sido assim por questões de produção, maus tratos e outras que tem sido muito fiscalizadas pela sociedade. Enfim, recompensas e punições estão relacionadas com dor e prazer e os limites não existem, especialmente se cada um quer se dar bem, como acontece no Brasil. Com toda a certeza, as frases “levar vantagem em tudo, certo?” e “Topa tudo por dinheiro“, dentre outras do gênero, viraram lemas e metas de muitos brasileiros.

How to be happy

Sem dúvida, este episódio é um dos que mais me surpreendeu pela diversidade de comportamentos e reações das pessoas. Acredito que, com o propósito de tratar um tema de maneira leve e integradora, o enredo ficou um pouco superficial e longe da realidade de cada um dos 100 humanos. Se, por acaso, eles tivessem solicitado que todos os participantes escrevessem três coisas que as deixassem felizes, teríamos  cem relações diferentes.

As reações das pessoas, mesmo que separadas em grupos diferentes, são quase que absurdas e revelam a cultura e criação que cada uma teve em casa e na escola. Considerando que a escola é a primeira relação de humanos fora do ambiente familiar ver alguns comportamentos reproduzidos em adultos é assustador.

Can you trust your senses?

Frase Fiódor Dostoiévski

É provável que este episódio tenha me chamado a atenção pela elevação da expectativa que a abertura me provocou. É uma pergunta que, caso eu fosse avaliar um grupo de pessoas, faria: Qual dos 5 sentidos humanos você dispensaria? Ou, em outras palavras, se você pudesse apurar os sentidos, queria ter um melhor do que os outros? Uma questão difícil e que, IMNSHO, o episódio não soube se apropriar para obter o máximo de situações diferentes.

Confesso que fiquei decepcionado pois em situações empresariais, os sentidos podem ter enorme valia em função das atividades profissionais de cada humano. Os sentidos podem prover, no âmbito pessoal e corporativo, avaliações que os programas de computador e a tal Inteligência Artificial (IA) não chegam nem perto. Inegavelmente, os resultados e análises, em função das atividades de avaliação, são precários e superficiais.

Não apenas confiar em nossos sentidos é perigoso como imaginar um sexto sentido para tomar decisões e agir pode ter um custo alto demais.

Ask a Human

É provável que humanos, seja 10, 100, 1000 ou um milhão, não estejam preparados para responder a perguntas e serem originais no comportamento. Certamente, estes mesmos humanos, em percentuais quase próximos da totalidade, não estão preparados para fazer perguntas. O episódio sobre as questões levantadas pelos humanos ou foram muito mal escolhidas pelos produtores ou a qualidade dos participantes foi deplorável.

Por isso, o pior episódio foi o final, o que justifica um possível cancelamento da série e que nos livrará de escrever a partir de uma produção. Por outro lado, este episódio motiva a escrever e pensar noutras abordagens mais produtivas e que provoquem as pessoas a pensar mais no conteúdo e menos na forma.

Sem Spoilers

Em suma, a série é interessante se soubermos como abordar e como avançar nas análises, sem conclusões apressadas. Uma vez que não costumo fazer spoilers sobre filmes e séries que gosto, não faço com aquelas que não agradei como um todo. A série é boa se as pessoas que a assistem se propõem a pensar além do roteiro, além de serem céticas quanto às “conclusões”.

Do mesmo modo, sou adepto à máxima atribuída a Mark Twain sobre mentiras e estatísticas – “Existem três tipos de mentiras: As mentiras, as mentiras deslavadas e as estatísticas“. Assim sendo, alguns episódios comprovam a hipótese de Twain, outras reforçam que devemos tomar cuidado com as interpretações que recebemos e que podem ser precipitadas.

Vale a pena?

De uma maneira geral, dos oito episódios, recomendo os seguintes:

  • The best age to be alive
  • Are you biased?

Por outro lado, os episódios “Ask a Human” e “Let´s talk about sex” são completamente dispensáveis e tem seu conteúdo abordado de maneira superficial e enviesada. É provável que a cultura estadunidense tenha influenciado estas temáticas e em outras culturas e sociedade considerem os temas até brincadeiras de criança. Com toda a certeza, 100 humanos em outras condições não perderam tempo com algumas questões e seus resultados.

Surpreendentemente, não fiquei assustado com alguns resultados e análises dos especialistas, muito menos com a atitude dos apresentadores. Com toda a certeza, eles foram bem mais reais do que as manifestações que visualizamos nas redes sociais, profissionais ou pessoais.

O mundo real e os episódios da série são, certamente, muito mais próximos de humanos do que as redes sociais e parece que normalizamos tudo aquilo que nos é “agradável”. Dostoiévski iria adorar analisar humanos ao final de cada episódio com o propósito de comprovar suas análise do Ser Humano. Os seres humanos têm normalizado muitos comportamentos que até pouco tempo atrás seriam condenáveis e chamam isto de evolução, #SQN.

 

(1) Perrennial Gen – A verdadeira geração-raiz

 

Imagem: Reprodução Netflix

Nota do Autor

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