Entre sem Bater
Este é um texto da série “Entre sem bater” (← Uma leitura, acima de tudo, “obrigatória”). A cada texto, uma frase, citação ou similar, que nos levem a refletir. É provável que muitas destas frases sejam do conhecimento dos leitores, mas deixaremos que cada um se aproprie delas. Entretanto, algumas frases e seus autores podem surpreender a maioria dos leitores. O “Primeiro Passo“, em qualquer ação ou busca pela verdade e o conhecimento, é tudo. Denis Diderot foi além da ideia de como iniciar algo.
Cada publicação terá reprodução, resumidamente, nas redes sociais Pinterest, Facebook, Twitter, Tumblr e, eventualmente, em outras isoladamente. Uma adaptação textual, com redução, pode ter publicação em sites e outros blogs, como o “Recanto das Letras“.
As frases com publicação aqui têm as mais diversas origens. Com toda a certeza, algumas delas estarão com autoria errada e sem autor com definição. Assim sendo, contamos com a colaboração de todos de boa vontade, para indicar as correções.
Na maioria dos casos, são frases provocativas e que, surpreendentemente, nos dizem muito em nosso cotidiano. Quando for uma palavra somente, traremos sua definição. Em caso de termos ou expressões peculiares, oferecemos uma versão particular. Os comentários em todas as redes sociais podem ter suas respostas em cada rede e/ou com reprodução neste Blog.
Denis Diderot
Denis Diderot foi um estudiosos em várias áreas do conhecimento. Desse modo, conseguiu entrelaçar diversos assuntos, mantendo-os distantes ou próximos. Podemos dizer, em outras palavras, que o cara era uma enciclopédia(*) que não misturava editorias. Por isso, afirmamos que o primeiro passo, como conceituou Diderot, define os caminhos que escolhemos.
Denis Diderot , (nascido em 5 de outubro de 1713, Langres, França – falecido em 31 de julho de 1784, Paris), literato e filósofo francês. Educado por jesuítas, Diderot posteriormente formou-se na Universidade de Paris. De 1745 a 1772 atuou como editor-chefe da Encyclopédie de 35 volumes, uma obra principal do Iluminismo. Ele compôs obras influentes como Carta sobre os Surdos e Mudos (1751), que estuda a função da linguagem, e Pensamentos sobre a Interpretação da Natureza (1754), aclamado como o método de investigação filosófica do século XVIII. Primeiro grande crítico de arte, foi especialmente admirado postumamente por seu Ensaio sobre Pintura (escrito em 1765). Seus romances incluem The Nun (escrito em 1760) e Rameau’s Nephew (concluído em 1774); ele também escreveu peças e trabalhos teóricos sobre drama.
Fonte: Britannica (inglês)
O Primeiro Passo
Inquestionavelmente, frases e pensamentos podem ser confusos, ou elucidar, falaciosamente, muitos conceitos e caminhos. Cada frase ou pensamento exige reflexão e contextualização e certamente, pode ser efeito do primeiro passo de uma caminhada.
A multiplicidade de visões de uma caminhada e seus desafios, em tempos de redes sociais, podem nos levar a desvios perigosos. Assim sendo, a frase de Diderot faz sentido e reforça a necessidade de praticarmos o ceticismo(1) sempre.
Ceticismo e Redes Sociais
Uma das traduções do pensamento de Diderot sobre o ceticismo ser o primeiro passo para avançarmos faz todo o sentido.
“… Uma coisa não é provada só porque ninguém a questionou. O que nunca foi abordado de forma imparcial nunca foi abordado adequadamente. Portanto, o ceticismo é o primeiro passo em direção à verdade. Deve ser aplicado de forma geral, porque é fundamental“.
in “The Anchor Book of French Quotations with English Translations” (1963)
Desse modo, vivemos tempos em que as pessoas empurram dogmas e crenças de forma parcial e não aceitam questionamentos. Por outro lado, ao empurrarem meias-verdades, promovem a destruição da verdade(2), sem oportunidades de revisão. O primeiro passo para a nossa sociedade reverter esta situação é a prática do ceticismo.
Enfim, na era digital e das redes sociais, a disseminação de informações e opiniões atingiu um nível sem precedentes. No entanto, essa explosão de narrativas fez surgir barreiras para o ceticismo, a crítica e o debate. Estas atitudes, certamente pilares fundamentais para o avanço do conhecimento, sofrem ataques constantes.
Embora seja verdade que os céticos perderam espaço na cena online para as bolhas que reforçam crenças e isolam vozes discordantes. Por isso, é crucial reconhecer que a prática do ceticismo, da crítica e do debate deveria ser vital na sociedade contemporânea.
Os Céticos
O primeiro passo para iniciarmos qualquer possibilidade de avançar no conhecimento é através do debate, de ideias.
O ceticismo, longe de ser uma postura de negação sistemática, é uma abordagem positiva de avanço do conhecimento. Assim sendo, o cético promove a investigação crítica e a avaliação racional das informações e perspectivas diferentes.
Em um ambiente de alta saturação de conteúdos sem verificação, questionar qualquer coisa virou um crime. Nestes ambientes online, sem dúvida, as notícias falsas e a desinformação proliferam sem controle. Desta forma, a capacidade de questionar, analisar e verificar fontes é mais importante do que nunca.
Os céticos desempenham um papel crucial ao desafiar narrativas simplistas, investigar a veracidade das alegações e promover uma cultura de pensamento crítico.
Crítica Construtiva
Na ideia de que frases, pensamentos e até mesmo expressões podem ser confusas, temos a ideia da crítica construtiva. É provável que este termo seja o mais ameaçador para as pessoas, quem faz sempre vê como construtivo. Por outro lado, quem recebe a crítica nunca admite construir algo a partir de qualquer observação contraditória. Certamente, esta é uma generalização que se faz pois acontece na quase totalidade dos casos. Em função disso, o primeiro passo para avançarmos é admitir que toda a crítica é construtiva.
Com toda a certeza, a crítica construtiva é essencial para o progresso intelectual, cognitivo e social dos seres humanos. Ao questionar pressupostos, apontar inconsistências e propor alternativas, os críticos desempenham o papel de cientistas. A proposta de qualquer cientista, fundamental na evolução do pensamento e na promoção da inovação, é ser cético.
Nas redes sociais, onde a polarização e a simplificação predominam, a crítica com fundamentação deveria servir como um contraponto. Entretanto, os manipuladores de bolhas preferem crucificar a crítica, ao invés de incentivar a reflexão e aprofundar as discussões.
Diálogo e Democracia
As polarizações, narrativas dogmáticas, bolhas de desinformação são, inquestionavelmente, o primeiro passo para a ignorância. Desse modo, o debate saudável é uma das pedras angulares da democracia e do avanço do conhecimento. Ao expor diferentes perspectivas, confrontar ideias e buscar consenso, cresce a compreensão e civilidade. Desde que as bolhas de opinião restrinjam a diversidade de pontos de vista, devemos sempre incentivar o confronto de argumentos.
Inegavelmente, as redes sociais apresentam desafios e óbices para o ceticismo, a crítica e o debate. A tendência nas bolhas e grupos, onde impera a confirmação de crenças, é criar um ambiente hostil à dissidência e à reflexão.
Assim sendo, diante destes desafios, é preciso ter táticas e estratégias para avançar no ceticismo, na crítica e no debate. Incentivar a diversidade de fontes de informação e o respeito às divergências são um primeiro passo. Além disso, é importante educar as pessoas sobre as armadilhas da desinformação e a propagação de fake news e golpes.
Ações Estratégicas
Para promover o ceticismo e a crítica em um mundo dominado pelas redes sociais, é essencial adotar estratégias específicas. Estas ações devem incentivar o pensamento crítico e a análise das informações e opiniões online. Com base nos conteúdos e narrativas devemos, outrossim:
- Educar para a Competência Crítica: A importância do pensamento crítico e da prática do questionamento é uma resistência à desinformação e manipulação. A promoção da educação digital visa capacitar as pessoas a questionar fontes, verificar informações e resistir a narrativas falaciosas.
- Diálogo e Debate Construtivo: Estudiosos, como em análises sobre a “Escola de Frankfurt” destacam a crítica à racionalidade instrumental e o desencantamento do mundo. Nesse contexto, sair do automatismo ante as tecnologias e as redes sociais é uma forma de fomentar o ceticismo e a reflexão crítica.
- Combater a Manipulação e Desinformação: A crítica de setores à esquerda da sociedade destaca a alienação que as contradições do sistema capitalista produz. Conscientizar as pessoas sobre as estratégias de manipulação presentes nas redes sociais é o primeiro passo. Embora os interesses por trás destas ações sejam inebriantes, fortalecer a postura da crítica é essencial.
- Abordagem Educacional Inclusiva: A grande discussão da educação é se ela posta-se como inclusiva ou excludente. A competência crítica da informação exige que o primeiro passo seja não-excludente. Inspirar-se, por exemplo, nos princípios de pedagogia de Paulo Freire é um grande obstáculo diante da polarização vigente. Valorizar a práxis das pessoas, é uma estratégia eficaz para estimular o ceticismo e a crítica nas interações online.
A verdade
Em um mundo de hiperconexões, o ceticismo, a crítica e o debate são a única possibilidade de se chegar perto da verdade(3). Destarte, é difícil, mas possível, superar as bolhas incentivando a diversidade de perspectivas e respeitando o contraditório. Assim sendo, avançar na capacidade de questionar, analisar e compreender o mundo que nos cerca é o objetivo.
Em suma, em um ambiente digital sem controle, é preciso investir na educação digital para a competência crítica em informação. Desta forma, será possível desconstruir a manipulação e desinformação e combater a ignorância digital de influenciadores digitais.
“Amanhã tem mais …”
P. S.
(*) A obra de Diderot (Enciclopédia) foi uma contribuição excepcional do Iluminismo para a evolução da humanidade.
(1) “Entre Sem Bater – James Russell Lowell – Ceticismo“
(2) “Entre Sem Bater – Bill Clinton – Destruição da Verdade“
(3) “Entre Sem Bater – Bertolt Brecht – A Verdade“
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Imagem: Entre sem Bater – Denis Diderot – O Primeiro Passo
Nota do Autor
Reitero, dentre outras, o pedido feito em muitos textos deste blog e presente na página de “Advertências“.
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