Uma Série e os Índios
Bom Dia, Verônica é uma série ficcional de TV policial com produção e ambientação inteiramente no Brasil. Assemelha-se, contudo, muito à vida real, inclusive pela manipulação das informações que autoridades e mídia protagonizam no Brasil. Escrevi, anteriormente, sobre séries a partir de fatos reais. Por exemplo, ” O Mecanismo dominante Tupiniquim “, também policial-política e a repercussão e opiniões são fracas. A princípio “Bom Dia, Verônica” não impressiona pois nos acostumamos com programas televisivos sanguinários. Entretanto, infelizmente, a violência dos primeiros episódios que nem provocam comoção, nos acostumamos na vida real.
Uma vez que as músicas que integram uma série dizem mais do que uma simples leitura da letra, é recomendável prestar atenção nestas canções. De fato, numa das músicas dessa série, a letra resume quase tudo nas linhas e entrelinhas. E, por outro lado, ainda permite um gancho para continuidade da trama em outras temporadas mais atualizadas. Aqui, um pequeno spoiler: a música a que me refiro é Índios, um dos “hinos” da banda Legião Urbana. Desse modo, mesmo que a interpretação na série não seja da banda original, teve interpretação convincente.
Verônica, A vítima
As estrofes da música Índios podem até não representar diretamente a personagem ( Verônica – Tainá Muller ). Entretanto, na produção musical ( Dado Villas-Boas ) fica patente a percepção do músico para colocar a referida canção unida ao enredo.
Por exemplo, no verso a seguir, a questão do Deus que muitos brasileiros louvam, parece estar, surpreendentemente, relacionada aos nossos dias. Do atual Presidente da República, ao mais humilde mortal que padece com a Covid-19, todos deveriam internalizar a letra da canção.
“… Quem me dera, ao menos uma vez,
Entender como só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
É só maldade então, deixar um Deus tão triste.“
Desse modo, é um verdadeiro desafio aos espectadores, já que não conseguem ter um discernimento amplo e associar uma ficção à nossa realidade.
A mídia, as instituições e vários personagens, têm representação na trama, são o “cuspe e o escarro“, tal e qual a realidade. Verônica é uma personagem que luta contra o sistema, como poucos fazem. Em outras palavras, ela coloca sua vida e a de seus familiares sob risco de morte, para tentar proteger quem mal conhece.
Mundo cão
Noutro verso,
“… Quem me dera, ao menos uma vez,
Que o mais simples fosse visto como o mais importante …”
A protagonista entende e cuida de vindicar a igualdade com o mais simples e menos protegido sendo equiparado ao mais importante e poderoso.
Existem personagens reais no Brasil como a atriz que faz o papel de policial honesta e correta ?
Surpreendentemente, a resposta é SIM. Certamente não são muitos e não possuem a coragem de uma Verônica da produção Netflix.
Quem me dera, houvesse, muitos(as) como ela, que mesmo sendo vítimas, vão à luta, se entregam e enfrentam o sistema. Por outro lado, algumas ações dentro do roteiro são condenáveis, até abomináveis e indignas. Se as primeiras cenas e episódios iniciais não trazem muita atenção, a série vai ganhando contornos mais pesados e prendendo a atenção.
Verônica, A Policial
A policial, que exerce atividade principal de escrivã, tem um perfil pouco amigável, que não deveria meter o nariz onde não deve. Talvez a expressão ( meter o nariz ) refira-se ao mau cheiro que exala de muitas coisas que vemos no dia-a-dia e que vamos nos ” acostumando “.
Se bem que o Brasil está se tornando o país de falsos cidadãos, deitados eternamente em berço esplêndido. Aquele povo que deixa roubar uma rosa do jardim e, passivamente, aceita pisarem e acabarem com seu jardim no dia seguinte.
Em suma, outro verso da personagem demonstra que o trabalho honesto é árduo e, na maioria das vezes, solitário e incompreendido.
“Quem me dera, ao menos uma vez,
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes.“
Quem me Dera
Tenho escrito muito sobre séries com o propósito de tentar ” transcrever ” as tramas para o mundo real. Verônica não me impressionou a ponto de dar uma nota superior a 7 ( sete ), segundo critérios similares aos de “ Rotten Tomatoes ” ). A crítica social na série é constante, tudo o que vemos nos telejornais tem sua representação no roteiro, até com certo exagero. Por outro lado, a violência, os feminicídios, os abusos de autoridade, são problemas reais com os Poderes do Estado. É provável que, até nos personagens que não tiveram uma fala sequer, a representação do abuso físico e mental foi intensa e real.
A série 3%, também nacional e de qualidade, me impressionou, por se tratar de uma ficção repleta de cenas imaginárias. Enquanto isso, a série sobre a policial-escrivã lutadora supera a vida real, com pitadas de ficção. Desse modo, não é uma série recomendada para quem quer somente um passatempo e não se preocupa com o enredo de sua vida atual.
Parafraseando o verso
“Nos deram espelhos e vimos um mundo doente –
Tentei chorar e não consegui.“
Escrevo que nos deram conexões com o mundo via Internet, tento chorar e não consigo, a indignação e a adinamia só crescem.
Terceira Temporada
No primeiro trimestre de 2024, liberaram a terceira temporada. Do mesmo modo que escrevo sobre outras séries e filmes, não me apresento como crítico da obra ou produção. Entretanto, minha teoria sobre esticarem alguns episódios ou séries ganha força com a série Verônica. É provável que uma novelinha ou série, de uns 15 capítulos, com o eixo da primeira temporada fosse suficiente.
Tenho muita resistência para acompanhar séries ou trilogias que ultrapassam certos limites. Vi a série Verônica com muitas dificuldades mas fiz questão de não deixar escapar nada. Ficou muito ruim e só espero que não apresentem nenhuma continuação ou produto derivativo.
A terceira temporada é cilada, Bino !
Sinopse(*)
Estrelado por Tainá Müller, Eduardo Moscovis, Camila Morgado e Elisa Volpatto, a série seguirá a história de Veronica Torres, Escrivã de Polícia que trabalha em uma Delegacia de Homicídios em São Paulo (SP). Casada e com dois filhos, sua rotina acaba sendo interrompida quando ela testemunha o suicídio chocante de uma jovem mulher. Nesse ínterim, ela recebe um telefonema anônimo de uma mulher desesperada, pedindo ajuda para uma violência doméstica.
Base da sinopse: Wikipedia
(*) A terceira temporada ganhou personagens na figura de Rodrigo Santoro e Maitê Proença. Os personagens, especialmente da primeira temporada, sequer aparecem em memórias ou em correlação com o enredo.
(*) Revisado e atualizado em março de 2024
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Imagem: Reprodução Netflix
Nota do Autor
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