Violência em campo - Alan Alencar

Árbitros e a violência em campo

Falácias e Paralogismos

Em primeiro lugar, que fique claro que um crime não justifica outro. Com toda a certeza, para falar de um ato criminoso ou da suspeita ou certeza de que uma pessoa cometeu um crime, falar de outros é errado. Desse modo, tudo que vou me posicionar aqui diz respeito a um crime que merece punição, assim como outros também mereceriam. Por outro lado, é inevitável traçar paralelos para mostrar que o problema é da sociedade como um todo. Um criminoso pode ter sua pena atenuada devido às circunstâncias, mas nada justifica o crime e ninguém pode advogar em prol do crime. Dessa forma, vou falar da manifestação dos árbitros deste final de semana e a violência em campo num jogo realizado no Rio Grande do Sul.

Violência em campo – Futebol

Antes que os leitores tirem conclusões apressadas, é preciso entender porque os árbitros brasileiros manifestaram-se contra a barbaridade ocorrida no RS.

O árbitro Rodrigo Crivellaro foi agredido por William Ribeiro, jogador do São Paulo (RS), em partida válida por uma divisão inferior daquele estado. Certamente, qualquer agressão física não está nos manuais da prática esportiva, seja contra adversários, público, árbitros, ninguém. Entretanto, e infelizmente, acontece mais do que possamos imaginar.

Desse modo, os árbitros brasileiros resolveram, de forma bastante ágil, fazer uma manifestação ao modo Kaepernick(1). As reações de todos e da mídia estão, surpreendentemente, diferentes de outras agressões iguais ou piores.

Violência em campo esportivo

Explodem, não raramente, os ânimos de atletas, árbitros, técnicos, dirigentes e assemelhados. Muita coisa acontece fora das quatro linhas e é transposta para dentro dos gramados, quadras e outros espaços da prática de esportes. Recentemente, publiquei texto que falava, em alguns episódios, sobre a influência dos árbitros nos resultados das partidas(2).

No texto indicado, o exemplo de como um árbitro pode violentar milhares de pessoas e como jogadores com alguma noção de que se está cometendo uma injustiça podem perder o controle. A bem da verdade, jogadores deveriam ter acompanhamento psiquiátrico pois a maioria deles não tem capacidade de pensar. Sem bem que, no futebol “moderno”, muitos não tem capacidade nem de praticar alguns esportes, mas como possuem bons empresários, a coisa “passa batido”.

Agressão a árbitro

Árbitros e auxiliares são mais visados em caso de dúvidas sobre marcações e erros crassos que mais se parecem intencionais. Mesmo que não haja má fé, é pública e notória a baixíssima qualidade técnica da arbitragem brasileira. Como nada é tão ruim que não possa piorar, a adoção do VAR ( do inglês Vídeo Assistant Referee ) na série A e depois na Série B do brasileiro, colocou mais lenha na fogueira.

Tenho a impressão que muita gente desqualificada está ganhando dinheiro com as arbitragens dentro de campo e fora das quatro linhas. Temos hoje ao menos dez pessoas por partida de futebol só para ganhar dinheiro com a arbitragem e são muitas as reclamações.

Uma vez que estamos com VAR nas principais divisões, o que isso tem a ver com a Série B do Gaúcho?

Jogadores de futebol, desde o “dente de leite” vêm jogos, jogam videogames e torcem por algum time e, como diria João Saldanha, “‘… não são filhotes de chocadeira …”. Já que todos, ou quase todos, atletas e árbitros estão enquadrados na maioria, é compreensível que uma hora ou outra a coisa exploda.

Precisa de agredir? Certamente, não ! Portanto, no caso do interior gaúcho, com a edição feita pela mídia em que separou a agressão final, o veredicto de todos foi formado rapidamente. O clube São Paulo (RS) dispensou o jogador por justa causa e ele agora que se vire para responder perante a justiça criminal pois no esporte ele não volta. OPS !

Crime e Castigo

No Brasil as coisas funcionam ou não, depende do interesse existente em torno da condenação ou absolvição.

Vamos a algumas comparações:

Por exemplo, o Bruno, ex-goleiro, acusado de mandar matar, mesmo sem corpo, foi condenado, cumpriu pena e tentou voltar a atuar por diversos clubes, alguns segmentos da sociedade aceitaram, outros não.

No caso do RS, o jogador foi preso por tentativa de homicídio. Quase simultaneamente à alta hospitalar do árbitro, o jogador foi solto. O árbitro deve ficar um mês sem poder atuar e o jogador foi à mídia para tentar justificar o crime. Se, de um lado, surgiram boatos nas redes sociais sobre as condições de saúde do árbitro, de outro o jogador não teve o mesmo suporte midiático.

Mesmo que coisas “normais” ocorram num país em que evangélico levanta a Bíblia numa das mãos e uma arma na outra; e ainda prega o direito a todos andarem armados. Pode ser uma contradição ou incoerência? Nem um pouco, é simplesmente hipocrisia ou pura canalhice.

Violência em campo, Educação, Racismo etc.

A violência em campo tem sido mais comum do que imaginamos, os casos isolados, o VAR, as injustiças e erros (propositais não é erro, é crime no esporte) tem aumentado.

Do mesmo modo, a violência e preconceito racial nos esportes tem crescido de maneira assustadora, em todas as divisões e quem é agredido não pode nem se manifestar que dizem: é mimimi !

A maioria que critica as manifestações é branca, por coincidência, a violência contra um árbitro teve este viés, as agressões, especialmente as morais, praticadas por árbitros, torcedores etc. vem sendo relegadas a um plano menor e campeia a hipocrisia. Onde a saúde mental não vai bem, outros setores do comportamento humano padecem.

Portanto, é importante destacar aqui para contextualizar a ideia que tenho que o problema e conflitos são maiores e mais graves do que a mídia divulga. Nesta mesma semana, uma professora foi agredida por uma aluna após discussão sobre uso de celular na sala de aula. A mídia tem banalizado as agressões que professores têm sofrido. Este tema foi abordado por mim alguns anos atrás onde transcrevi uma frase que se faz presente.

O novo perfil da delinquência é o resultado acabado da crise da família,

da educação permissiva e do bombardeio se setores do mundo do entretenimento

que se empenham em apagar qualquer vestígio de valores”

Carlos Alberto di Franco

O caso de professores(as) agredidos por alunos(as) estão aumentando e a mídia acha que a educação é menos importante do que futebol, depois não reclamem.

Delinquentes

Em suma, a delinquência é resultado do que se transformou nossa sociedade, existe um “normal” para certos grupos e outro “normal” para outros setores. A política virou um Fla-Flu de hipocrisia a cada partida, cada confronto esportivo, cada opinião em rede social tornou-se uma disputa estúpida sobre ter ou não razão.

As manifestações de jogadores contra racismo da torcida, de jogadores contra árbitros e de torcedores contra dirigentes, jogadores, árbitros, são mais do que legítimas, sem violência em campo ou fora dele, senão vira batalha que não terá vencedores.

Enfim, o país misturou política, futebol, religião, ciência, crenças numa salada regada a vinagre de péssima qualidade, não tem volta ! A violência em campo não pode ser confundida com violência no campo e nenhuma violência física ou verbal deve ser ignorada, ou seremos todos bárbaros.

 

P. S. Reforço a minha opinião de que o jogador do São Paulo (RS) cometeu um crime. PONTO ! Qualquer outra ilação será tratada como opinião equivocada. Não defendo nenhum suspeito de crime até que seja julgado e passe à condição de culpado ou inocente. O resto é narrativa de quem ainda não entendeu o buraco em que nos metemos no Brasil.

 

(1) Após protestar contra o racismo, Kaepernick não consegue clube na NFL

(2) Jogo Comprado – O lado criminoso do esporte

(3) Todo mundo mente

 

Imagem: Alan Alencar (Agência Minas Esportes)

Nota do Autor

Reitero, dentre outras, o pedido feito em muitos textos deste blog e presente na página de “Advertências“.

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Agradeço a compreensão de todos e compreendo os que acham que escrevo coisas difíceis de entender, é parte do “jogo”.

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